Aparecida - Desaparecida

Artigo do bispo da diocese de Guarapuava (PR), dom Amilton Manoel da Silva, CP.

11/10/2022 08H26


Há 305 anos, na cidade de Guaratinguetá (SP), três pescadores encontraram o corpo de uma imagem da Imaculada Conceição, nas águas do rio Paraíba. Jogando mais adiante as redes, encontraram a cabeça da imagem. Fato surpreendente: uma imagem, há décadas no fundo do rio, subir o corpo separado da cabeça e ambas as partes ficarem esperando para serem encontradas.

A imagem recebeu o nome de “Aparecida”, uma vez que apareceu nas águas. Não deveria se chamar “Achada” ou “Encontrada”? Para aqueles pescadores que, até então, nada haviam pescado, narra a história, que depois do encontro da imagem, a pescaria se tornou abundante. Creio que compreendi o sentido de “Aparecida”: é que Maria, intercessora, fez “aparecer” os peixes na rede e na mesa dos pobres; a saúde para quem veio implorar; o trabalho, para quem não teve oportunidades; o perdão, para quem fechou o coração...

Aparecida foi o título que sintetizou o presente que Jesus nos deu: a sua Mãe! Aparecida é o dom que Maria nos faz enxergar: o amor de Deus a nos conduzir.

A imagem apareceu negra; um grito contra o racismo e a discriminação, um clamor à fraternidade universal. Surgindo das águas, lembra o nosso batismo, nascimento para Deus e para a Igreja, compromisso com o evangelho e com a transformação do mundo. Tomada pelas mãos dos pobres, se tornou madroeira (madrinha) ou padroeira, símbolo da resistência às forças do mal e sinal de esperança do povo brasileiro. 

Quem nunca foi à cidade de Aparecida, imagina um majestoso Santuário construído à Maria, sua imagem no centro convergindo tudo e todos, orações marianas santificando as horas do dia, etc.  No entanto, ao chegar lá, a decepção é grande e necessária, pois ao se defrontar com o imponente Santuário, o fiel se depara com a DES - APARECIDA. “Onde está ela neste espaço exuberante?”, grita a alma do peregrino aflito... E na busca angustiante, semelhante surpresa se dá, ao avistar na parede esguia, fixada, a pequena imagem de 39 cm. Aparecida, quase desaparecida, como permaneceu por longos anos no fundo das águas.

No maior Santuário mariano do mundo, a devoção à Nossa Senhora é secundária, e não é por acaso. Cristo é a centralidade da nossa vida e da nossa fé, por isso, no centro está o altar, que é Cristo! Sobre o altar, suspenso, um enorme crucifixo, aponta a redenção operada por Cristo; no presbitério também está o altar da Palavra, o Filho que a Mãe nos pediu para escutar. Num dos lados do presbitério, situa-se a capela do Santíssimo Sacramento, onde Cristo é adorado. Diversas Missas são celebradas ao longo do dia, momento privilegiado do encontro com Cristo. No subsolo da Basílica, vários confessionários oferecem a reconciliação, experiência profunda da misericórdia divina. A criação é retratada pelos biomas brasileiros, nas paredes que circundam o presbitério; cenas bíblicas estão por toda parte. Quantos espaços poderíamos ainda elencar, onde a Mãe nos leva ao Coração de Deus...

Aparecida, desaparecida no Santuário Nacional. Frente a esse paradoxo, como não lembrar do único título que Maria se deu: “A serva do Senhor?” (Lc 1, 38; 48), ou do seu cântico? “A minha alma glorifica o Senhor e exulta meu espírito em Deus meu Salvador... Ele viu a pequenez de sua serva, desde agora as gerações hão de chamar-me de bendita... Elevou os humildes” (Lc 1,46-56). Tem sentido a recomendação do Papa emérito Bento XVI: “Permanecei na escola de Maria”. A casa da Mãe é uma escola!

O mistério de Aparecida é fazer compreender que a devoção à Maria, na Igreja, não é primária, mas também não se trata de um acréscimo à fé. Sendo “Maria constitutivo dogmático da fé católica” (LG 52), seus Santuários são espaços catequéticos que nos levam a ver a Mãe de Deus, como modelo de Igreja que somos chamados a ser e a inspiração do serviço gratuito, aos apelos de Deus. A Mãe das dores, solidária com os sofredores da história; a Mãe da alegria, que celebra a Páscoa do Filho nas várias paixões do mundo; a Mãe peregrina, que caminha com a Igreja, fortalecendo os passos dos seus filhos rumo à pátria definitiva. 

Mãe Aparecida, dá-nos a tua humildade, para que em todas as nossas ações repitamos sem cessar: “Que Cristo apareça e que eu desapareça”. Amém!

Veja Mais