É tempo de despertar

Toda a Igreja é chamada a viver um tempo novo, onde o protagonismo ressoe como movimento sinodal, e onde as forças estejam a serviço da vida e da salvação.

Por dom Amilton Manoel da Silva, CP

Já estamos vivendo numa “quase” pós pandemia; embora as notícias de novas variantes da covid-19, ainda assustam a humanidade.  A vida parece que voltou ao normal: família, trabalho, escola, Igreja... O isolamento social, já não conjulga com os vários encontros que tem acontecido entre as pessoas, a naturalidade e a espontaneidade tem ganhado fôlego, a fé tomou novo impulso, a esperança tem se fortalecido e voltamos a sonhar... 

Neste cenário de novidades e de buscas para ganhar o tempo perdido, precisamos avançar com cuidado, dando passos segundo a realidade e discernindo à luz da fé, o que de fato vale a pena abraçar e investir, pois poderemos voltar a um passado que não deu certo, ignorar as tantas lições que aprendemos no presente pandêmico e projetar um futuro utópico demais, que poderá ser decepcionante.

Na dimensão da fé! Cerca de 80% dos católicos já retornaram à vida eclesial: Missas, Celebrações da Palavra, reuniões, formações, retiros, etc. Creio que os outros 20% não tardarão. Entretanto, há uma responsabilidade para aqueles que regressaram: despertar os que ainda estão tomados pelo medo, ou que ainda não sentiram saudades da sua comunidade-Igreja. De que forma? O testemunho do serviço, através da visita e da escuta, acompanhado de ações solidárias, que não faltaram durante a pandemia, são atitudes pontuais neste contexto. 

Também não pode faltar o testemunho da alegria de experimentar novamente a presença do Ressuscitado na comunidade de fé, oferecendo a Sua paz, o dom do Espírito, o perdão e o envio em Seu nome. Enfim, cada católico conhece, pelo menos, um batizado que ainda não voltou e cujo lugar está vazio... Com fidelidade criativa, poderá tomar a iniciativa de ir ao seu encontro, não com a preocupação de “encher a Igreja”, mas com a consciência de despertar a voz de Deus que grita no interior dos seus filhos e filhas: “Eu preciso de você!

Sirvo-me da Carta Encíclica Fratelli Tutti, do Papa Francisco, para essa conscientização coletiva: “Adotemos a proposta de Jesus, de uma forma de vida com sabor do Evangelho, que consiste em amar o outro como irmão; como um apelo à fraternidade aberta, chamados que somos a reconhecer e amar cada pessoa com um amor sem fronteiras. Um amor que vai ao encontro é capaz de superar todas as distâncias e tentações de disputas, imposições e submissões”.

Outras afirmações do documento, nos encorajam a olhar para frente, caminhando como família de Deus: “Vivemos às sombras dum mundo fechado que dificultam o desenvolvimento da fraternidade universal; as sombras afundam a humanidade na confusão, na solidão e no vazio; há muitos semeando o desânimo e a desconfiança. Não esqueçamos que a sociedade globalizada torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos. Temos a tentação do isolamento e do fechamento em nós mesmos ou nos próprios interesses; este jamais será o caminho para restabelecer a esperança e realizar uma renovação, o caminho é a proximidade e a cultura do encontro”. 

A pandemia nos despertou; o Papa nos provoca: “A pandemia da covid-19 deixou a descoberto que temos uma pertença de irmãos; somos chamados a repensar os nossos estilos de vida, as nossas relações, a organização das nossas sociedades e sobretudo a nossa existência. Apesar das sombras densas, devemos dar voz a tantos percursos de esperança, pois Deus continua a espalhar sementes de bem na humanidade. A esperança é capaz de olhar mais para além da comodidade, das seguranças e compensações que nos fecham, para se abrir a grandes ideais”.     

Toda a Igreja é chamada a viver um tempo novo, onde o protagonismo ressoe como movimento sinodal, e onde as forças estejam a serviço da vida e da salvação. Neste mês mariano, peçamos a intercessão de Nossa Senhora de Belém, para que, despertados por Jesus Cristo, enfrentemos os novos desafios da evangelização com fé e coragem!